O desconforto que o Desenrola não desenrola
por: Carlos Castro, CFP® em 25/05/2026
Finanças Pessoais
O Desenrola alivia o estoque da dívida, mas não muda o fluxo que produz novas dívidas ruins.
A Fundação Getulio Vargas, por meio de seu Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira, passou a divulgar um indicador que, embora ainda pouco conhecido pelo grande público, talvez seja o retrato mais honesto da relação do brasileiro com o crédito nos últimos anos. Trata-se do Índice de Desconforto de Crédito, o IDC, uma medida que varia de zero a um e combina três dimensões habitualmente analisadas em separado: o comprometimento da renda das famílias com dívidas, o nível de inadimplência e a qualidade do crédito contratado, ou seja, o peso de modalidades caras, como o rotativo do cartão e o crédito pessoal não consignado, dentro do estoque total de dívida das famílias. É essa terceira dimensão que torna o índice tão relevante. Ela mostra que não basta saber quanto o brasileiro deve; é preciso entender em que condições ele deve.
Em janeiro de 2026, o IDC alcançou 0,94, o maior nível da série histórica iniciada em 2014. Durante a pandemia, o índice chegou a ficar próximo de 0,02, refletindo a combinação de auxílio emergencial, queda da inadimplência e menor dependência de crédito caro. O Desenrola original, em 2023, derrubou o índice para algo em torno de 0,67, um alívio expressivo em termos absolutos. Mas, encerrado o programa em 2024, o desconforto voltou a subir e bateu novamente o teto da série. O dado mais incômodo não é apenas a marca atingida, mas o padrão revelado por ela: políticas de renegociação produzem alívios reais, porém transitórios, enquanto a estrutura que gera o endividamento permanece praticamente intacta.
Não estamos diante de um problema cíclico; estamos diante de um problema estrutural que aprendeu a conviver com seus próprios remédios.
O Desenrola 2 chega a esse cenário como um programa bem desenhado e mais ambicioso do que o anterior. A nova edição, instituída por medida provisória em maio de 2026, oferece descontos de 30% a 90% para dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal contratadas até janeiro deste ano e atrasadas entre 90 dias e dois anos, com taxa máxima de 1,99% ao mês, parcelamento em até 48 vezes e carência de 35 dias. O programa permite ainda que o trabalhador use 20% do saldo do FGTS, ou mil reais, o que for maior, para abater dívidas, prevê desnegativação automática de débitos de até cem reais, bloqueia o CPF de quem renegocia para apostas online por doze meses e obriga as instituições financeiras a destinarem 1% das garantias do Fundo Garantidor de Operações para ações de educação financeira.
É um conjunto de medidas mais sofisticado, com público-alvo mais bem delimitado, mecanismo de proteção contra recaída comportamental e algum vetor de prevenção. Reconhecer a qualidade do desenho é importante. O programa deve, sim, produzir alívio significativo para milhões de famílias nos próximos meses.
O ponto, porém, é outro. E é aqui que o IDC ajuda mais do que qualquer índice tradicional de inadimplência: por melhor que seja o desenho do Desenrola 2, ele atua sobre o estoque, e não sobre o fluxo. Renegociar dívida ruim é tirar a corda do pescoço de quem já está endividado, mas não muda quem oferece a corda, em que condições ela é oferecida nem por que ela é tomada. O endividamento brasileiro não é apenas um acúmulo de decisões individuais ruins; é também o resultado previsível de um sistema em que o crédito mais acessível para grande parte da população está entre os mais caros e penalizantes, em que o cartão rotativo, o cheque especial e o crédito pessoal não consignado funcionam como porta de entrada para qualquer aperto orçamentário, em que o parcelamento é incentivado por toda a cadeia de varejo e em que os incentivos comerciais frequentemente empurram novas ofertas antes de uma avaliação robusta da capacidade de pagamento.
Quando se observa o IDC subir mesmo em períodos de inflação controlada e desemprego em queda, o recado é simples e desconfortável: a saúde macroeconômica não chega plenamente ao orçamento das famílias porque o desenho do crédito brasileiro neutraliza parte importante dos ganhos antes que eles apareçam.
A leitura usual da cobertura de mercado tende a recair sobre o consumidor que não soube planejar, que cedeu ao impulso, que comprou além da conta. Essa leitura não é falsa, mas é parcial e conveniente, porque deixa de fora a parte do problema que cabe ao sistema. Uma família que compromete parcela relevante da renda com dívidas, em um país onde modalidades caras respondem por uma fatia expressiva do crédito, não está apenas administrando mal o seu dinheiro. Ela também está sendo administrada por produtos financeiros cujos juros são tão altos que poucas boas decisões individuais conseguem reverter a trajetória. Atribuir a esse cenário o rótulo único de descontrole pessoal é deslocar para o consumidor uma responsabilidade que, em parte, pertence ao desenho do mercado. E é justamente esse deslocamento que o IDC ajuda a desmontar, ao mostrar que a qualidade do crédito, e não apenas o seu volume, explica o desconforto crescente.
Por isso, o Desenrola 2, ainda que bem estruturado, não resolverá sozinho o problema que se propõe a enfrentar. Resolverá uma parcela do estoque de dívidas em atraso, melhorará a vida de milhões de famílias no curto prazo, devolverá previsibilidade a orçamentos sufocados e talvez derrube temporariamente o IDC para um patamar mais civilizado, como ocorreu na primeira edição. Mas, sem mexer no fluxo, isto é, sem alterar a forma como o crédito é oferecido, contratado e usado no dia a dia, o índice tende a voltar a subir quando o programa terminar. O sucesso de uma política como essa não deveria ser medido apenas pelo volume de dívidas renegociadas, mas pela proporção de famílias que, doze ou vinte e quatro meses depois, não retornaram ao mesmo lugar. Esse indicador, infelizmente, não costuma ocupar o centro do debate.
A agenda que falta é menos espetacular do que um mutirão de renegociação, mas é a única capaz de mover o IDC de forma duradoura. Passa pela revisão das modalidades de crédito mais caras, que continuam sendo a principal porta de entrada para o superendividamento. Passa por uma concessão mais responsável, em que sinais como uso recorrente do rotativo, pagamento mínimo da fatura e contratação sucessiva de empréstimos gerem alertas e ajustes preventivos, e não apenas novas ofertas. Passa por acompanhamento estruturado das famílias que renegociaram, capaz de transformar a renegociação em ponto de partida de uma jornada de reorganização, e não em evento isolado. E passa, sim, pelo 1% destinado à educação financeira, desde que esse recurso financie acompanhamento real, individualizado e mensurável, com indicadores claros de reincidência, comprometimento de renda e uso de crédito caro, e não apenas campanhas institucionais de baixo impacto.
O Desenrola 2 pode ser a porta de entrada dessa agenda. Pode também ser apenas mais um capítulo da mesma história, repetida com nomes diferentes a cada ciclo político.
O IDC em 0,94 diz que o Brasil construiu um sistema de crédito capaz de produzir desconforto crescente mesmo quando a economia melhora. Diz que a inadimplência mede a ferida, mas é a qualidade do crédito que mede a doença. E diz, sobretudo, que o país terá de escolher entre seguir desenrolando dívidas a cada ciclo ou enfrentar, de uma vez, o que faz com que elas sempre voltem.
Carlos Castro, planejador financeiro, membro do Conselho de Administração da Planejar, CEO e sócio fundador da SuperRico, plataforma de saúde financeira.