A inflação que corrói a aposentadoria é a da saúde
por: Carlos Castro, CFP® em 26/06/2026
Aposentadoria
O IPCA mede a variação de preços de uma cesta média, montada a partir do consumo de famílias com renda entre um e quarenta salários mínimos e essa média existe para cumprir uma função de política monetária, não para descrever a vida de ninguém. O número que serve de referência para o Banco Central é uma síntese de milhões de orçamentos diferentes e nenhuma família vive dentro de uma média. Cada uma tem a sua própria cesta, com pesos próprios e, portanto, a sua própria inflação.
Para quem está na fase de acumulação, com renda do trabalho que se reajusta de tempos em tempos, esse descolamento entre a inflação do índice e a inflação da casa costuma ser administrável. O problema muda de natureza quando a renda deixa de se reajustar pelo trabalho e passa a depender de um patrimônio que precisa durar. É na desacumulação que a diferença entre a média e a cesta individual se torna um risco estrutural do plano de aposentadoria.
A cesta de quem envelhece é dominada por um gasto que corre num ritmo próprio, descolado do índice geral: a saúde. A FGV calcula há anos o Índice de Preços ao Consumidor da Terceira Idade, o IPC-3i, construído para medir a variação de preços da cesta de famílias compostas majoritariamente por pessoas acima de sessenta anos. O índice existe justamente porque o consumo dessa faixa é diferente o suficiente para exigir um termômetro próprio e serve inclusive de referência para políticas públicas de saúde e previdência. Na premissa do indicador, a inflação de quem está nessa fase não é a mesma do resto da população.
O motor desse descolamento é a inflação médica. Ela corre, de forma estrutural e persistente, acima da inflação geral da economia. Não se trata de um ano ruim ou de um choque pontual. É um padrão de décadas, observado dentro e fora do Brasil, em que o custo de cuidar da saúde sobe mais rápido que o custo de viver em média. Para uma família jovem, a saúde é uma linha entre outras no orçamento. Para a família em desacumulação, ela tende a se tornar a linha que comanda o orçamento inteiro e o faz num momento em que a renda já não tem como reagir.
Há ainda um agravante que é específico dessa etapa e que nenhum índice de inflação captura, porque não é inflação no sentido técnico. O plano de saúde tem dois movimentos de alta simultâneos. O primeiro é o reajuste anual, que acompanha a variação de custos do setor. O segundo é o reajuste por faixa etária, aplicado no aniversário do beneficiário em idades predeterminadas e que se concentra justamente nas faixas mais avançadas. O resultado é que o item mais pesado da cesta de quem envelhece acelera por dois caminhos ao mesmo tempo, a variação de custos e o salto por mudança de faixa, exatamente quando a renda perdeu a capacidade de se reajustar pelo trabalho. A cesta da pessoa em desacumulação não é apenas diferente da média. Ela é estruturalmente mais cara de carregar e fica mais cara à medida que avança.
Isso tem uma consequência direta para qualquer projeção de renda na desacumulação. Quando se planeja a retirada de um patrimônio para trinta anos, é comum usar a inflação geral como régua de correção. O raciocínio parece prudente, mas embute um erro: ele corrige a renda futura por um índice que subestima sistematicamente a inflação da cesta que aquela pessoa de fato vai consumir. Ano após ano, a diferença entre a inflação geral e a inflação real da cesta de saúde abre uma fenda. Pequena no início, ela se acumula e ao longo de duas ou três décadas pode ser a distância entre um patrimônio que dura e um que se esgota antes da hora. A Curva de Vitalidade Financeira®️, que usamos para modelar essa fase, parte justamente desse reconhecimento: o custo de vida de quem desacumula não cresce na cadência do índice geral.
O trabalho do planejador não está em saber o IPCA do mês. Esse número está a um clique de distância, disponível para qualquer um. O trabalho está em saber que aquele número descreve uma média que não existe e em construir uma projeção de renda que reconheça a composição real da cesta daquela pessoa, o peso crescente da saúde nela e a velocidade própria com que esse item corre. Informação sobre a inflação média todo mundo tem. Interpretação sobre qual inflação vai efetivamente corroer aquele patrimônio é o que separa um plano que dura de um plano que apenas parece durar.
A inflação média foi feita para a política monetária. Ela nunca foi feita para a sua desacumulação.
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Coluna escrita por Carlos Castro, planejador financeiro, membro do Conselho de Administração da Planejar, CEO e sócio fundador da SuperRico, plataforma de saúde financeira.